maio 20, 2016

Lançamentos de Maio - Editora Rocco

Em sua estreia no mundo dos livros, Hoy conta a história de Fergus Hamilton, um garoto que adora pedalar e cujo maior sonho é ganhar uma bicicleta de 24 marchas com marca do campeão Steve “Raio” Sullivan em seu aniversário de nove anos. Mas, para sua decepção, o enorme embrulho de papel pardo na porta da frente da casa guarda, não a moderna e veloz Sullivan, mas a velha e enferrujada bicicleta do pai de Fergus, que ele não conheceu, e que sua mãe e seu avô resolvem dar de presente ao menino, já que o orçamento anda meio apertado. 

Sem conseguir disfarçar muito bem sua frustração, Fergus acaba vencendo sua relutância inicial e, com o apoio do avô e de sua melhor amiga, Margarida, resolve reformar a antiga bicicleta e treinar para entrar para a principal equipe de ciclismo da cidade. Ele só não esperava que a magrela guardasse tantas surpresas! Em um de seus treinos no Parque Craigmount, Fergus alcança seu melhor tempo e parece voar – o vento no rosto, o coração disparado – e acaba se esquecendo do conselho do avô sobre nunca, jamais, girar os pedais para trás. Ele sabia que se aquela fosse uma bicicleta de corrida, ele cairia, pois os pedais desse tipo de bicicleta não giram para trás; mas aquela não era uma bicicleta de corrida, e quando deu por si ele estava girando os pedais uma, duas, três vezes para trás...

O que vem a seguir é uma fantástica aventura sobre duas rodas, numa terra onde o ciclismo é banido pelo rei e onde Fergus terá que passar por estranhos desafios. Mas o que ele descobrirá, afinal, é que determinação e trabalho duro podem levá-lo aonde ele quiser. E até mesmo aonde ele nem imagina. Afinal, a magia de um verdadeiro campeão está na vontade de vencer!




O clássico O mágico de Oz é o ponto de partida para a estreia na literatura da roteirista Danielle Paige. Em Dorothy tem que morrer, Amy Gumm, uma outra garota do Kansas, é levada por um tornado para o mundo encantado de Oz, mas encontra por lá uma terra bem diferente da que era descrita no livro. Em vez da explosão de cores e de uma vegetação exuberante, uma paisagem sombria e, por vezes, assustadora. A responsável? Dorothy Gale, que se tornou uma princesa cruel e governa o reino com mão de ferro.

No Kansas, a vida de Amy Gumm não é das mais fáceis. Aos 8 anos, ela viu o pai perder o emprego e abandonar a família para ficar com outra mulher. Enfrentando dificuldades financeiras, ela e a mãe foram morar em um trailer, o que era motivo para a menina ser vítima de preconceito na escola. Para piorar, desde os 13 anos Amy precisava se virar sozinha e ainda cuidar da mãe, que sofreu um acidente de carro e se tornou dependente de remédios, alternando períodos de apatia no sofá e noites regadas a álcool em um bar.

Cansada de uma vida sem perspectiva e recheada de problemas, Amy só pensa em ir embora. Mas um tornado atinge o Kansas e a jovem, que havia sido deixada sozinha no trailer com Star, a ratinha de estimação da mãe, é arrastada pelo vento e perde os sentidos. Quando acorda, Amy é resgatada por Pete, um rapaz belo e misterioso, e não consegue reconhecer o lugar onde está. Para a sua surpresa, ela é avisada de que foi parar em Oz, um reino agora dominado por uma tirana Dorothy, que é assessorada pela bruxa Glinda e por versões monstruosas do Homem de Lata, do Espantalho e do Leão Covarde. 

Cabe à Amy a missão de destruir Dorothy. O plano é infiltrá-la no palácio da Cidade das Esmeraldas, a fim de que ela consiga se aproximar o suficiente de Dorothy e cumprir a tarefa. Nesta releitura sombria do clássico de L. Frank Baum, Danielle Paige apresenta aos leitores uma versão inédita de Oz, na qual as aparências podem enganar. Qual será o resultado do embate entre as duas garotas do Kansas? Haverá salvação para o reino mágico, outrora feliz e próspero? Embarque nessa aventura e descubra.




Corina sempre se entendeu melhor dentro d’água. Aprendeu apneia, para permanecer bem quietinha enquanto peixes e outras formas de vida submarina circulassem ao seu redor. Com o passar dos anos, não conseguiu imaginar para si nenhum trabalho longe do fundo do mar. Foi por isso que aceitou rapidamente o convite de um antigo colega para integrar uma equipe que pesquisa os arredores de uma zona hidrotermal. No período de confinamento, cada um dos cinco membros do heterogêneo grupo parece isolar-se não apenas nas profundezas do oceano, mas em suas histórias, experiências e problemas.

Cada mergulho nos recantos desconhecidos do mar profundo é uma aventura, durante a qual os cinco pesquisadores não sabem exatamente o que irão encontrar. Ao mesmo tempo que testam os trajes, Corina e outra pesquisadora instalam sondas que captam sons a serem usados nas pesquisas de Davenport. “O que querem dizer os sons coletados? Com quem querem se comunicar? Existe algo a mais?”, pergunta-se o pesquisador, mas sem revelar aos demais o que o levou a iniciar a pesquisa.

Cada personagem vive seus pequenos dramas de forma particular, assim como procura guardar muito bem seus segredos. Até que um acidente ocorrido com Corina abala a tranquilidade controlada do ambiente – não foi a primeira vez, nem para ela, nem para a equipe que a havia contratado como substituta de alguém que já falhara. Quais serão os desdobramentos? O que Corina irá fazer? Revelar o que vem sentindo ou seguir em frente mostrando-se forte e capaz de aguentar a pressão? E os demais? Até quando todos os segredos serão mantidos? Mergulhe nesta aventura que convida a suspender o fôlego e a ouvir o silêncio. 




O fascínio que lugares ensolarados exercem sobre os habitantes do Hemisfério Norte é um tema constante na literatura. A busca por um local paradisíaco, onde a vida não tem pressa de acontecer, vem encantando leitores no mundo inteiro, que se debruçam sobre relatos desses novos exploradores, que trocam o meio urbano pela simplicidade de regiões onde o universo agitado impulsionado pela tecnologia é quase uma mera lembrança. A escolha desse estilo de vida em que tempo, prazer e tranquilidade substituem prazos apertados, consumismo e estresse está em Piquenique na Provence – Uma história de vida com receitas, da jornalista norte-americana Elizabeth Bard. 

O calor de dias brilhantes e ensolarados, o perfume da lavanda, os sabores da boa mesa, o toque suave da mão de uma criança pequena à procura de carinho são algumas das imagens evocadas por todo o texto.  Os apelos sensoriais se intensificam diante das diferenças de cultura e das descobertas que Elizabeth faz quando troca Paris por uma localidade na Provence. Foi em Paris que ela se apaixonou por Gwandel, o que a fez mudar-se para a França e formar um novo círculo de amizades, sem o apoio da família de origem judaica. Alguns anos mais tarde, às vésperas do nascimento do filho Alexandre, o casal viaja em férias para a cidadezinha de Cereste, onde viveu René Cher, líder da Resistência aos nazistas e poeta, admirado por Gwandel. Ao saberem que a casa do poeta está à venda, num impulso, eles decidem morar lá.  

Abraçar a cultura francesa, segundo Elizabeth Bard, é acostumar-se a um cotidiano em que a boa mesa tem importância fundamental. A praticidade típica dos americanos, determinados em se mostrarem “vencedores”, fazendo do sucesso – e de sua exibição – o valor primordial da existência, é rapidamente deixada de lado pela jornalista. Vizinhos acolhedores são os guias que apresentam ao casal as vantagens de fazer da vida uma celebração diária. Nesse universo menos competitivo, os dias se sucedem lentamente, permitindo que se usufrua de cada novidade, como os pratos típicos da região, cujo preparo é minuciosamente explicado em receitas que encerram cada capítulo. 

O projeto de vida à francesa se consolida depois que o marido deixa o cargo de executivo numa companhia cinematográfica para abrir uma sorveteria artesanal – que ganha críticas entusiasmadas de guias turísticos e se torna uma das cinco melhores da França. Piquenique na Provence mostra, entre receitas tentadoras e com um texto inteligente e bem-humorado, a trajetória de uma jornalista norte-americana aprendendo os truques da maternidade francesa, uma família encontrando uma nova paixão profissional e a iniciação de uma cozinheira na culinária clássica da Provence. Uma deliciosa mistura de Comer, rezar, amar e Um ano na Provence, com potencial para se tornar um longseller do catálogo da Rocco como Sob o sol da Toscana, de Frances Mayes. 




No último livro da trilogia Redenção, Nana Pauvolih prova que o tempo não é capaz de amenizar uma paixão e que o verdadeiro amor supera qualquer obstáculo. Em Redenção pelo amor, o protagonista é Antônio Saragoça, jovem bem-sucedido, líder exímio, orgulho da família. O destino do jovem está traçado desde a maternidade: muito desejado após anos de tentativas para engravidar, seus pais nunca tiveram dúvidas de que ele seria o herdeiro natural para assumir a Corpórea, empresa da família. Melhor ainda casado com Ludmila, filha de Walmor Venere, sócio de Arnaldo. 

Vivendo um relacionamento de aparências, movido por interesses, Ludmila jamais pensou em abrir mão do casamento, mesmo sem o menor resquício de amor, carinho e companheirismo. Fria, calculista, orgulhosa e disposta a permanecer ao lado de Antônio a qualquer custo, ela aceita a indiferença do marido em troca de conforto, status e um cartão de crédito sem limites à disposição.

E assim se passaram nove anos. A rotina sem graça, no “automático”, de Antônio é interrompida quando ele reencontra Cecília Blanc, seu grande amor do passado. As lembranças, a química entre os dois, tudo volta à tona de forma intensa e visceral. O resultado é um turbilhão de emoções, aliado à certeza de que o tempo não foi capaz de amenizar os sentimentos e o desejo físico entre os dois. Não há mais dúvidas: tudo seria diferente a partir daquele momento.

Reviver o passado terá um preço alto que, ainda assim, Antônio está disposto a pagar. Arriscar tudo em nome da felicidade e deixar para trás anos de apatia, rancor e falsas aparências. Render-se definitivamente ao verdadeiro amor passa a ser então sua meta de vida. Custe o que custar.





Por meio de traços simples, nos quais predominam os tons de preto e vermelho, Philippa Rice usa a linguagem dos quadrinhos para revelar alguns momentos de intimidade, despertando a empatia dos leitores ao mostrar um relacionamento que nada tem a ver com os romances da ficção. O ato de escovar os dentes, compartilhando a pia do banheiro; a disputa por um dos lados da cama na hora de dormir; o cochilo no sofá; a hora de lavar louça e até a conversa sobre quem irá preparar o chá para os dois são flagrantes de uma deliciosa convivência, transbordante de carinho.

Mas a vida entre quatro paredes não é o único foco de Soppy. Caminhadas de mãos dadas, idas ao cinema, passeios ao ar livre, compras no supermercado e a visita a uma livraria também estão retratados no livro. A cumplicidade é tanta que, mesmo nas páginas em que não é mostrado um diálogo, a sintonia do casal é percebida com facilidade. E como nem tudo é perfeito, há brigas e momentos de tristeza, sempre contornados com palavras conciliadoras ou apenas um abraço silencioso.

A história de amor contada em Soppy não é feita de gestos grandiosos. E é exatamente isso que a torna encantadora e envolvente. É impossível não esboçar ao menos um sorriso diante de um casal que é tão real que poderia ser formado pelos leitores, seus amigos ou conhecidos. Com sensibilidade e ilustrações cheias de charme, Philippa Rice mostra que a vida a dois está longe de ser tediosa e que a felicidade pode estar nas pequenas coisas.




Em um dos livros mais comentados de 2016, L.S. Hilton mostra que o mundo da arte não se restringe a dinheiro e glamour. Os bastidores sujos, violentos e, acima de tudo, sensuais das grandes galerias da Europa estão no centro da trama de Maestra, thriller erótico que faz questão de romper com clichês e tabus. E quem guia o leitor por essa jornada é Judith Rashleigh, uma das mais fascinantes anti-heroínas da literatura atual. Ela é a força motriz de uma montanha-russa de emoções ora estéticas (que podem se referir tanto a uma pintura quanto a um salto alto), ora viscerais – porém sempre inesperadas e tendendo ao proibido, que ditam o ritmo do romance. 

Judith leva uma vida dupla. Das oito às cinco, se dedica a uma carreira aparentemente promissora – mas, na realidade, um bocado frustrante – como assistente em uma das mais elitizadas lojas de arte do planeta, em Londres: aprendeu a se vestir, a falar de maneira pomposa, a agir conforme o script em um ambiente masculino em excesso. Em paralelo, nas noites de quinta e sexta, trabalha na boate Gstaad, onde sua função é seduzir os clientes até convencê-los a consumir o máximo de champanhe superfaturado que forem capazes. E isso é estranhamente recompensador, um contraponto às humilhações diárias na casa de leilões. Parece que, ali, é ela quem finalmente dá as cartas.

Mas essa rotina vira de ponta-cabeça quando Judith é demitida de seu emprego diurno ao sugerir, com conhecimento de causa, que uma obra recém-adquirida pela casa de leilões – aparentemente um George Stubbs, um dos mais rentáveis pintores ingleses do século XVIII – seria uma falsificação. Naquele exato momento, ela decide responder ao insistente aceno de uma grande amiga que passou anos negligenciada, uma companheira que, na juventude, foi responsável por manter sua espinha ereta e a fazer superar brigas e insultos: a Raiva. O que vem a seguir são reviravoltas constantes que deixam um rastro de sangue e outros fluidos corporais pelas paisagens deslumbrantes da Inglaterra e da Riviera Francesa, com passagens por outros locais igualmente paradisíacos na Itália e Suíça.

Impulsionado por uma protagonista amoral e psicologicamente instável, mas, ainda assim, repleta de nuances e absolutamente cativante, Maestra tem como principais referências clássicos como O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith, e Psicopata americano, de Bret Easton Ellis. Ao mesmo tempo, o romance de L.S. Hilton se revela um dos mais destacados representantes de uma linhagem contemporânea de suspenses da qual também fazem parte sucessos como Stieg Larsson, Gillian Flynn e Paula Hawkins. E o nome da sexy e brutal Judith Rashleigh não vai deixar de ecoar tão cedo: além de Maestra ser o primeiro volume de uma trilogia, a Sony Pictures já deu sinal verde para uma superprodução cinematográfica.







Saudado pela crítica estrangeira como uma estreia original e surpreendente, O livro de receitas de Eva Thorvald acompanha a trajetória de uma celebrada chef de cozinha – da infância conturbada ao estrelato – através de uma narrativa saborosa que entrelaça relatos de diferentes personagens sobre a protagonista e algumas de suas receitas favoritas, tal qual um prato preparado cuidadosamente para extrair o máximo do sabor de cada um de seus ingredientes. Nascido e criado em Minnesota, o autor J. Ryan Stradal mescla a culinária tradicional do meio-oeste norte-americano, herança dos almoços que sua avó preparava, às pesquisas científicas da atualidade sobre produção de alimentos sem o uso de agrotóxicos, para criar uma ficção que entrelaça comida, família e memórias. 

Lars Thorvald sempre demonstrou aptidão para a cozinha. Na adolescência, os colegas diziam que “a cada Natal ele fedia como chão de mercado de peixe”, impregnado com o aroma do “lutenfisk”, prato tradicional escandinavo. Guiado pelo próprio instinto, o desajeitado Lars acaba descobrindo uma profissão ao se dedicar a aprimorar cada vez mais receitas tradicionais de sua família. Sua paixão pela boa comida é tamanha que, no nascimento da pequena Eva, ele submete ao pediatra da filha um cardápio requintado de refeições para a recém-nascida. Diante da recusa do médico, ele permite que a menina seja amamentada até que sua mulher, que dá os primeiros passos na carreira de sommelier, abandona a família. Com a subsequente morte de Lars quando Eva tem apenas seis meses, a menina é adotada pelos tios. 

É a trajetória de Eva pelos trinta anos seguintes que se desenvolve para o leitor a seguir, sob óticas diferentes. Ainda bebê, ela já havia demonstrado ao pai ser a herdeira de seu raríssimo dom, quando derruba uma prateleira de tomates no mercado, deixando intacto, no entanto, o único exemplar “perfeito” em termos nutricionais e de sabor entre aqueles frutos. Episódios como esse são relatados, ao longo dos capítulos, por diferentes personagens que ajudam a compor, a partir de suas próprias histórias e sua relação com a protagonista, o retrato de Eva Thorvald até se tornar a celebrada chef por trás de jantares disputadíssimos. 

Sem render-se aos modismos culinários pós-nouvelle cuisine, os pratos preparados por Eva Thorvald buscam a chamada “confort food”, que recriam o prazer da boa mesa que se conhece na infância – ainda que, em seus primeiros anos, a jovem chef não conte com uma família convencional. Drogas, pobreza e a luta para sobreviver fazem parte de sua história pessoal. Mas ela desde cedo percebe que o alimento é não apenas um item essencial para essa sobrevivência – ele oferece a superação, pelo prazer, de todas as carências pessoais enfrentadas não só por ela, mas por todos, e que é possível reencontrar, na comida, o aconchego, o carinho e o amor perdidos nos processos de amadurecimento de cada um.




O argentino Ricardo Piglia – crítico e narrador que em termos gerais podemos definir como um “especialista da leitura”, que sempre tem em mente a ideia da tradição literária – disse numa entrevista que Clarice Lispector parece uma escritora de outro planeta, no sentido de que não se pode afirmar facilmente que sua literatura é brasileira. Acrescente-se: nem com a literatura de qualquer outro lugar.

Clarice Lispector é justamente um mundo – ou o mundo. A edição de Todos os contos, organizada pelo pesquisador e biógrafo Benjamin Moser, reunindo pela primeira vez em um só volume todos os relatos da autora de “Laços de família” e “Felicidade clandestina”, investe o leitor na qualidade de explorador desse planeta que, pode-se ter uma certeza além da ciência, é demasiadamente humano. Habitado por bichos, homens e sobretudo mulheres, que se revelam, nas mãos de Clarice, maravilhosos em meio à alegria e ao horror da existência.

Originalmente, a coletânea saiu nos Estados Unidos (The complete stories, New Directions, com premiada tradução de Katrina Dodson), e foi selecionada pelo jornal The New York Times como um dos 100 melhores livros de 2015. É importante pedra na pavimentação da carreira internacional de Clarice Lispector, cujo impulso nos últimos anos tem sido notável. Antes restrita aos meios universitários, a escritora radical, mas sempre apaixonante, alcança aos poucos um público cada vez maior.

São 85 contos. Uma das razões para que tal reunião nunca tenha acontecido antes – nem no Brasil – é uma particular história de edição, que registrou variantes dos escritos da autora durante toda sua vida: ela tinha o hábito de reciclar obras antigas e publicá-las em novos formatos. Além disso, o organizador Benjamin Moser optou por montar uma ampla rede: “Clarice Lispector não respeitava os limites entre os gêneros. Muitos de seus textos foram apresentados como jornalismo, mas são claramente ficcionais, ao passo que muitos daqueles que foram publicados como ficção podem ser classificados de ensaios ou relatos memorialísticos.”

A obra é uma viagem, desde o primeiro conto, publicado aos 19 anos, até a implosão intelectual e sexual da artista à medida que se aproximava da morte. E um retrato da autora, bela mulher de diplomata, alta e loura, longas pernas que se deixavam fotografar na Praia do Leme, mas também a filha de imigrantes pobres do Leste Europeu e mãe de classe média que, separada do marido, teve de se virar para ganhar a vida – trabalhou como jornalista de moda, beleza e comportamento, usando pseudônimo. Tudo no livro evoca seu “fascínio feminino” e sua tragicidade de fumante inveterada que quase se mata ao provocar um incêndio ao adormecer com o cigarro aceso.   

No prefácio, Benjamin Moser faz a ressalva elogiosa: “Esta literatura não é para todo mundo: até mesmo alguns brasileiros bastante cultos ficam perplexos com o fervoroso culto que ela inspira. Mas para aqueles que a entendem instintivamente, o amor pela pessoa de Clarice é tão imediato como inexplicável. A sua arte é uma arte que nos faz desejar conhecer a mulher; e ela é uma mulher que nos faz querer conhecer a sua arte. Este livro fornece uma visão de ambas.”

Fica evidente nos relatos – alguns inesquecíveis para quem os leu pela primeira vez e sempre retorna a eles: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Uma galinha”, “Feliz aniversário”, “A menor mulher do mundo”, “O búfalo”, “A legião estrangeira” – o perfeito domínio da narrativa curta. Alguns críticos se julgaram incompetentes para analisar a autora, e outros, mais obtusos, duvidaram do que aquilo que liam fosse literatura. Mas alguém discorda que, para inventar, há de que se conhecer o básico? No conto tradicional, uma história secreta se revela no clímax ou mesmo no truque da reviravolta da última linha. Em Clarice, repare em seus finais: muitas vezes a alma da personagem, a qual foi se desnudando no processo da escrita, resume-se (ou implode-se) numa única frase. 

“Amor” é um conto típico – e genial – de Clarice Lispector. Entre tantos, é mais um em que o cenário é o Rio de Janeiro. Ana, casada, com filhos, tem um troço dentro do bonde, grita, deixa cair o embrulho de ovos, ao ver um cego. Mas não um cego como outros: aquele mascava chicletes parado perto do ponto.  É o início de uma jornada interior de terror gótico. A personagem salta do bonde e entra pela alameda central do Jardim Botânico, entre as palmeiras: “A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.”

Que os leitores sejam bem vindos ao paraíso de Clarice.

5 comentários:

Gleicy Haner disse...

Gostei de vários titulos dos lançamentos, Dorothy tem que morrer e redenção pelo amor foi os que eu mais gostei. Ótimo post!


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Nana Barcellos disse...

Olá,
Adorei os lançamentos. To lendo o primeiro livro dessa trilogia [??] da Nana.
Quero ler esse da Dorothy e o de contos da Clarice, eu amei a capa.

P.S.: Tomara que cê curta Como Ser Solteira. Me fala se curtiu. ♥

tenha um ótimo final de semana.
Nana - Obsession Valley

Line Silva disse...

É muito livro bom para pouco dinheiro, logo de cara só pela sinopse fiquei desejando ler o Dorothy tem que morrer e essa fofura (pelo menos parece ser uma fofura) o Soppy que já inclusive coloquei como desejados no Skoob.
Seguindo o seu cantinho :D

http://www.sweetexpected.com.br/

Vida de Leitor disse...

Oi Carol,
De todos esses livros quero muito ler Soppy, vou pedir de presente pro namorado <3

Beijos,
Natália.

www.doprefacioaoepilogo.blogspot.com.br

Ana Araújo disse...

Ansiosa por ler esses livros!
http://annahandtheblog.blogspot.pt/

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